DEM desiste de indicar acusado de homicídio

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Denunciado como mandante de dois assassinatos, Júlio Campos foi convidado pelo líder do partido para presidir Comissão de Segurança Pública. Questionada pela reportagem, bancada decidiu escolher outro nome.

 

 

Dep. Júlio Campos   ( foto Renato Araújo--Ag. Câmara)
Dep. Júlio Campos ( foto Renato Araújo–Ag. Câmara)

Declarando-se inocente, Júlio disse não ver problema em comandar a Comissão de Segurança mesmo sendo acusado de homicídio

A liderança do DEM na Câmara desistiu de indicar um deputado acusado de ser o mandante de dois assassinatos para presidir a Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado. O deputado e ex-governador Júlio Campos (DEM-MT), denunciado pela Procuradoria-Geral da República no Supremo Tribunal Federal (STF) por homicídio e formação de quadrilha, chegou a ser indicado à tarde pelo partido para comandar o colegiado. A informação foi confirmada pelo próprio deputado, pela Agência Câmara e pela liderança da bancada, que admitiu ignorar a existência do inquérito contra o mato-grossense.

Mas, agora à noite, a assessoria do DEM procurou a reportagem para informar que o indicado não seria mais Júlio, mas Pauderney Avelino (DEM-AM). O motivo da mudança, afirma a assessoria, não foi a investigação contra Júlio Campos, mas o fato de Pauderney ter conseguido maior número de apoiadores entre os seus colegas de partido.

No começo da noite, Júlio afirmou ao Congresso em Foco que havia recebido o convite do líder da bancada, Mendonça Filho (PE), como uma “homenagem” e que decidiria se aceitava o cargo apenas nesta quarta-feira (26).

Ele disse não ver problemas em responder a um inquérito por duplo homicídio no Supremo e comandar a Comissão de Segurança Pública. “Não tem nada a ver uma coisa com a outra”, disse o deputado à reportagem. “Em que eu posso me beneficiar em ser presidente dessa comissão? Parar o inquérito, não vai”, comentou. “Se o ministro aceitar a denúncia e o plenário acatar, eu vou ter de responder.” Júlio Campos afirma não ter praticado crime algum. O único motivo que poderia fazê-lo desistir do convite para presidir a comissão seria a fragilidade do seu estado de saúde, declarou.

Em janeiro do ano passado, o então procurador-geral da República Roberto Gurgel denunciou o deputado pela morte do geólogo Nicolau Ladislau e do empresário Antônio Ribeiro Filho, assassinados em São Paulo após questionarem a transferência fraudulenta da fazenda Cedrobom, em Mato Grosso. Segundo a acusação, a propriedade foi transferida para pessoas que admitiram ser “laranjas” de Júlio, ex-governador do estado. “As provas que integram este inquérito comprovam que José Júlio de Campos foi o mandante dos dois assassinatos”, afirma Gurgel na denúncia que está, há mais de um ano, nas mãos do relator do caso no STF, ministro Marco Aurélio Mello. O relator ainda não apresentou seu parecer.

Júlio Campos disse à reportagem que Mendonça Filho e os deputados do DEM “queriam prestar uma homenagem” a ele por causa da proximidade de sua despedida da Câmara. Aos 67 anos de idade e 45 de vida pública, ele vai encerrar a carreira política – já foi prefeito, governador, senador, deputado e conselheiro do Tribunal de Contas de Mato Grosso.

Pela divisão das comissões entre os partidos, o DEM ficaria com a de Viação e Transportes, mas a trocou, de última hora, pela Comissão de Segurança Pública.

Hoje à tarde, a Agência Câmara, veículo oficial da Casa, informou que Júlio Campos era o indicado do partido para assumir a comissão. À noite, a assessoria da Liderança do DEM confirmou a informação à reportagem. Após ser questionada sobre o processo do deputado por homicídio, a assessoria procurou o líder Mendonça Filho. Mais tarde, disse que Pauderney Avelino também quer presidir o colegiado. O parlamentar amazonense confirmou à reportagem o interesse. Em seguida, a Agência Câmara retirou do ar o nome do deputado da lista dos indicados e informou que ele disputava o cargo com o colega amazonense.

Júlio Campos disse que seu caso não tem nada a ver com os questionamentos feitos contra Blairo Maggi, um dos maiores agricultores do país, que assumiu a Comissão de Meio Ambiente do Senado, e Marco Feliciano, que é contra o casamento homossexual e assumiu a Comissão dos Direitos Humanos no ano passado. De acordo com Júlio Campos, Blairo “foi um bom presidente da comissão”. “E o Marco Feliciano foi muito imprudente nos primeiros meses dele lá. Eu tenho muito bom senso e equilíbrio”, disse o deputado do DEM.

Telefonemas

A denúncia da Procuradoria-Geral da República é embasada na quebra de sigilo telefônico dos assassinos, dos contratantes das mortes e do próprio Júlio Campos. Horas depois da morte de pelo menos uma das vítimas, o geólogo Ladislau, há troca de telefonemas entre o policial que executou o crime e o advogado de Júlio Campos, e deste com próprio deputado. O Ministério Público sustenta que o ex-governador pagou R$ 100 mil apenas para encomendar a morte do geólogo, a cargo de um policial civil.  O deputado ainda é investigado por crimes eleitorais e falsificação de documento em outros dois inquéritos no Supremo.

Júlio Campos sempre rechaçou a denúncia da PGR. “Jamais cometeria um troço desses”, afirmou ele ao Congresso em Foco em 2011. Na noite desta terça-feira (25), ele disse que os telefonemas entre ele e seu advogado, que minutos antes conversava com o executor do crime contra Nicolau Ladislau, não comprovam a denúncia. “Não tem nada que me ligue ao assunto. O [suposto] intermediário é meu advogado em alguns assuntos e que estava vendendo minha televisão em Cuiabá. Está tudo documentado”, justificou Júlio Campos.

Ele destacou que a própria família de Ladislau “não tem nada contra” sua pessoa. Além disso, afirma que, por ser parlamentar, está mais exposto a denúncias e a pessoas que se aproveitam de sua visibilidade.

O deputado ainda acusou Roberto Gurgel e sua esposa, a ex-procuradora Cláudia Sampaio, de perseguição. “Lamentavelmente, no último dia da gestão do ex-procurador, ele encaminhou todos os processos de parlamentares. Ele pegou a cópia de um relatório que um delegado maluco de São Paulo escreveu, reescreveu a mesma coisa e mandou pra frente para não ficar na mesa dele.” Na verdade, a denúncia foi oferecida oito meses antes de Gurgel deixar o caso.

Júlio Campos questionou as “decisões políticas” de Gurgel que o desgastaram perante o Congresso. Lembrou que o deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) acusa o procurador de fraude em um parecer. E reclamou do fato de a mulher do procurador, Cláudia Sampaio, ter segurado seu processo durante cinco anos, quando o caso ainda tramitava no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

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