Joneuma e Uldurico (montagem das redes sociais)
A ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, Joneuma Silva Neres, assistida pela Defensoria Pública da Bahia, confessou em delação premiada junto ao Ministério Pública da Bahia (MPBA) que facilitou a fuga de 16 detentos do presídio de Eunápolis em dezembro de 2024, a pedido do ex-deputado federal Uldurico Júnior, que acabara de perder a eleição para prefeito de Teixeira de Freitas e precisava de dinheiro.
Uldurico Junior, que nega todas as acusações, foi preso na última quinta-feira (16/4) em Salvador. No documento de delação premiada assinado pela ex-dirigente do presídio, que está em prisão domiciliar, há os detalhes de como e por que ocorreu a fuga e a participação do ex-deputado Uldurico Junior em toda a ação criminosa.
No depoimento como colaboradora premiada, Joneuma Neres assume que sabia da negociação e do plano realizado para a fuga dos internos, confessando que agiu com negligência, confirmando que foi nomeada como diretora do Conjunto Penal de Eunápolis por indicação de Uldurico Júnior, com quem teve um relacionamento amoroso.
Joneuma foi nomeada como diretora do Conjunto Penal de Eunápolis em 14 de março de 2024. Ela lembrou que logo no dia seguinte, Uldurico compareceu ao presídio acompanhado de várias pessoas, entre elas o candidato a vereador Alberto Cley Santos Lima, conhecido como Cley da Auto Escola, então filiado ao PSD. Que da mesma forma como fazia no presídio de Teixeira de Freitas, Uldurico Júnior teria solicitado uma conversa com os chefes de todas as facções custodiados no presídio de Eunápolis. Joneuma contou que atendeu ao pedido após se sentir pressionada.
Informou ainda que, uma semana depois o ex-deputado voltou retornou à unidade, com as mesmas pessoas, para conversar com os mesmos internos. Entre os detentos estavam “Ednaldo”, mais conhecido como Dáda, chefe da facção criminosa Primeiro Comando de Eunápolis (PCE); “Sirlon”, o Saguin, apontado como sub-líder da facção; “Luquinhas”, “Juan Pablo” e “Cascão”, que seriam os representantes de cada ala.
A ex-diretora confessou que liberou regalias aos internos a pedido do ex-deputado federal, como apontado pela investigação do MP-BA. A lista contava com cardápio especial e um freezer. Detentos tinham chaves das celas e os beneficiários da fuga foram agrupados nas mesmas celas para facilitar a fuga.
Os 2 milhões para pagar dívidas
Segundo Joneuma Neres, em 14 de outubro de 2024, após ter perdido a eleição para prefeito de Teixeira de Freitas, Uldurico Júnior compareceu à cidade de Eunápolis, fazendo pressão para ter contato com Dáda, chefe da facção Primeiro Comando de Eunápolis (PCE).
Segundo afirma na delação, Uldurico Júnior precisava de dinheiro com urgência para prestar contas e pagar determinadas pessoas com quem ele tinha dívidas. Em meio a isso, ela afirmou que o ex-deputado negociou a fuga com Dadá por R$ 2 milhões.
Em 2 de novembro de 2024, ela e o ex-deputado estavam em um hotel, em Eunápolis, quando o candidato a vereador Alberto Cley e a esposa dele trouxeram uma pessoa de confiança de Dadá, que saiu do veículo de Cley e entrou no veículo do ex-deputado federal.
Disse que ela estava com o ex-deputado e que ao seu lado, no carro, estava a pessoa de confiança de Dáda no banco traseiro. Que essa pessoa ligou do celular dela para Dáda e realizou uma chamada em modo viva-voz, firmando o acordo de facilitação de fuga em troca dos R$ 2 milhões.
Embora tenham agendado o pagamento em dinheiro até 31 de dezembro na cidade de Porto Seguro, o deputado informou dias depois que precisava com urgência de um adiantamento de R$ 350 mil, mas Dáda teria aceitado adiantar o pagamento de somente R$ 200 mil antes da fuga.
Tal quantia foi encaminhada na noite de 4 de novembro de 2024, a ex-diretora foi sozinha a uma residência no bairro Juca Rosa, que tinha um adesivo com o nome “CLEY” colado no muro, parou o carro em frente à casa e uma pessoa da confiança de Dáda entregou o dinheiro em uma caixa de sapato.
No dia seguinte, ela entrou em contato com o pai de Uldurico Júnior, o também ex-deputado federal Uldurico Alves Pinto, via aplicativo de mensagens, perguntando onde deveria encontrá-lo para entregar o dinheiro.
A ex-diretora disse que ela entregou o dinheiro, na mesma caixa de sapato, na casa do pai do ex-deputado federal, em Teixeira de Freitas, conforme acertado com ele.
Joneuma diz que na residência do pai de Uldurico Júnior estavam a madrasta dele, uma funcionária doméstica e um assessor da família. Que o assessor teria conferido o dinheiro e que o pai de Uldurico ficou com R$ 150 mil. Segundo narra no documento, o restante dos 200 mil, ela mesma depositou R$ 21.600,00 na conta de Uldurico Júnior e realizou um PIX de R$ 24 mil para a conta de um outro homem.
O documento assiando por Joneuma junto ao MP mostra ainda um trecho onde é citado o ex-deputado federal Geddel Vieira Lima, que já declarou não ter participado da trama:
“A colaboradora informou que Uldurico Jr. dizia que metade do dinheiro da fuga seria para ele, e metade para o chefe (referindo-se à Geddel Vieira Lima). Relatou que Uldurico encaminhava à colaboradora mensagens supostamente enviadas por Geddel, cobrando o dinheiro (doc. 10). A colaboradora esclareceu que as mensagens trocadas com Uldurico Jr. em 03/01/2025, nas quais falam sobre “chorar as rosas”, referiam-se à quando ocorreria o pagamento do restante do valor acordado pela fuga (doc. 11e doc. 12). O acordo da fuga previa que apenas Sirlon e Ednaldo fugiriam, no dia 31/12/2024. Uldurico Jr. Encaminhou mensagem de whatsapp à colaboradora questionando por que fugiram mais internos e em data diferente”.
O documento firmado em fevereiro deste ano não relata o momento em que se deu o pagamento da complementação dos R$ 2 milhões, ou seja, o pagamento restante de R$ 1,8 milhões.
